Resenha de Livro: Murder in the Dark

Um livro fininho que fica entre o conto, a crônica e a poesia. Murder in the Dark, como vários outros livros de Margaret Atwood, é uma grande provocação a aspectos da vida moderna que damos por naturais e/ou normais.

Escolhi esse livro para fazer parte da Maratona Literária 3.0 e foi uma obra difícil de ler. Não, não pelos mesmos motivos que Um Dia, mas porque Murder in the Dark é daqueles livros que nos forçam a uma leitura atenta. A linguagem é difícil e a cada página ficamos com uma interrogação na cabeça.

Livros assim são controversos. Confesso que aprendi a ler esse tipo de literatura na faculdade. Não que Margaret Atwood escreva sempre assim (ela tem livros ótimos que são super fluidos), mas essa obra é experimental. Não sou daquelas que abraça esse tipo de texto e despreza o resto como lixo, mas tenho lá meus momentos de apreciar uma literatura que algumas pessoas chamam de “difícil”.

O livro é dividido em 4 partes, cada uma delas apresentando um texto curto (aquela coisa que falei de ficar entre o conto, crônica e poesia) sobre um determinado tópico. Parte 1 vai falar sobre a memória e meu texto favorito foi de cara o primeiro, “Autobiography”:

The smell is the point at which landscape dissolves, ceases to be a landscape and becomes something else.

Parte 2 apresenta um único texto, “Raw Materials”, uma espécie de conto sobre alguns turistas que procuram uma experiência autêntica. A crítica no entanto é que a experiência autêntica que eles tanto querem é totalmente influenciada por filmes e livros, ou seja, de autêntica não tem nada:

We walk back down the corridor, touching nothing, knowing that we have intruded, blundered upon a child’s serious and profoundly believed game, and we have spoiled everything.

A terceira parte trata das relações entre os gêneros e sobre o ato de escrever. “Simmering” foi meu favorito. Esse conto em especial cria uma espécie de realidade alternativa em que os homens exercem seu poder na cozinha e as mulheres são oprimidas. Uma ótima crítica a duas ideias importantes: 1) como o patriarcado opera oprimindo mulheres e 2) como essa coisa de que uma atividade é naturalmente feminina ou masculina é ridícula:

If Nature had meant women to cook, it was said, God would have made carving knives round and with holes in them.

Parte 4 fala também de relação entre os gêneros, mas de uma forma mais pessoal. Medos e ansiedades de relações, desejo, sexo. Meu favorito foi “Strawberries”, que mistura de um jeito bem experimental a sensação da raiva numa briga:

I’d like to say I saw everything through a haze of red; which is not true. Nothing was hazy. Everything was very clear,

O texto que dá título ao livro, “Murder in the Dark”, está na terceira parte. Podemos traduzir como “assassinato no escuro”, um clássico jogo de detetive no hemisfério norte. Numa sala escura, depois de receber papéis num sorteio, o assassino deve fingir estrangular a vítima, que grita. As luzes se acendem. Todos congelam num canto, menos o assassino e o detetive. O detetive deve tentar descobrir quem cometeu o crime. Quando o detetive pergunta quem é o assassino, todos devem dizer a verdade, de menos, é claro, o próprio assassino. Atwood associa esse jogo de mentiras no escuro com o próprio ato de escrever:

Just remember this, when the scream at last has ended and you’ve turned on the lights: by the rules of the game, I must always lie. Now: do you believe me?

O que é a literatura se não uma grande mentira?

Recomendo Murder in the Dark para entusiastas de textos experimentais e para autores em geral. É bom pensar sobre essas coisas e a senhora Atwood tem sempre muito a dizer.

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