Ballet depois dos 20 anos – Parte 4: Festivais

porMelissa de Sá

Ballet depois dos 20 anos – Parte 4: Festivais

A melhor parte do ballet é dançar ballet, mas isso é algo que, paradoxalmente, fazemos pouco. Okay, algumas sequências no centro podem ter aquele feeling de dança dependendo do professor, mas é quando nos preparamos para os festivais de fim de ano que realmente dançamos.

E essa é a parte mais feliz e mais tensa de todas.

Porque nos palcos somos todas divas.

E nós, bailarinas depois dos 20 anos, temos lá nossos desafios nessa hora. Entre decorar a coreografia, pagar figurino caro e morrer de rir nos ensaios, está aquela apreensão de dançar num palco.

É uma apresentação. E todo mundo vai te ver. Não adianta.

Diferente de danças sociais em que a gente pode se jogar na pista (já falei da minha experiência com Lindy Hop e de se jogar na pista aqui), no ballet clássico a gente sobe num palco e se apresenta. E é isso.

Algumas amigas online que começaram ballet mais tarde comentam comigo várias vezes sobre essa ansiedade de subir no palco e dançar pra todo mundo ver. De como é estranho se expor assim. Eu sinceramente nunca tive essa apreensão. Talvez porque eu tenha feito ballet quando era criança e tenha apresentado naquela época. Palco nunca me assustou. Pelo contrário.

Eu gosto de palco, até. Acho mais fácil dançar lá em cima do que dançar socialmente. Uma coisa que me ajuda é pensar que no palco eu não sou mais eu, mas outra pessoa. Eu sou uma parte da coreografia. O que me levou a uma constatação que só se confirmou ao longo dos anos: quanto mais consciente de mim mesma, mais minha performance é medíocre. Quanto mais eu me torno outra pessoa, aquela da coreografia, melhor danço.

Se errar… errou

Eu sou lenta para decorar coreografias. Não sou daquelas que aprende com vídeos, nem de ver a colega fazer. Preciso de alguém que me explique, preciso repetir 78 vezes, preciso de um professor.

Por esse mesmo motivo, sou muito ansiosa. Fico com medo de não conseguir aprender em tempo hábil e vou a todos os ensaios. Eu sou daquelas que não falta nunca e se tem ensaio extra, lá estou eu. Eu encho o saco da professora perguntando até pra que lado do palco eu tenho que olhar em determinado momento.

Mas chega na hora, no palco, eu erro.

Desde meu primeiro festival em 2012, não teve uma única vez que não errei. Ano passado cheguei bastante perto de uma apresentação impecável, num ballet moderno, mas fiz um rolamento torto e uns fuettés meio caídos. Nesse ano, tive erros mais aparentes tipo esquecer um passo.

O que fazer?

Nada.

Isso mesmo. Não se culpe, não se sinta mal. Não entre na paranoia. Assista os vídeos e tente pensar no por que você errou. Nervosismo? Falta de treino? Deu branco? Aí você pode trabalhar em cima disso ano que vem.

Se Sylvie Guillem já caiu no palco…quem somos nós?

Imprevistos acontecem. Sempre.

No meu primeiro festival (eu tinha 6 meses de ballet e não sabia metade do que estava fazendo), um pedaço do meu figurino agarrou no telão. Eu fiquei agarrada no meio do palco, meu figurino rasgou. Na hora, eu não tive dúvidas: enrolei o pedaço que ficou solto no pescoço e continuei dançando. Depois fui chorar. Aí passou. Assisto o vídeo sem traumas.

Alguma coisa sempre vai acontecer. Meia-calça rasgada, pedaço de figurino desaparecido, piso não-adequado, iluminação na sua cara… Sendo mais velhas, acho que temos uma vantagem em relação às bailarinas moçoilas: somos mais maduras. Conseguimos entender os “The show must go on” feelings.

Entre no clima

O tema do seu festival é animais de fazenda? Então seja um animal de fazenda! Se a gente quer dançar o melhor que podemos, temos que entrar no clima. Seja você o matinho que cresce no fundo do corpo de baile ou a Clara do Quebra-Nozes.

Acho que isso tem muito a ver com o que falei no primeiro ítem e foi algo que eu só descobri no meu segundo festival. Não adianta neurar com coreografia e técnica, se você tá parecendo um fantoche no cenário errado. Se é pra sorrir, sorria! Se é pra ficar séria, fique. Se é pra fazer carão, faça.

Assistindo os vídeos desse ano, consigo entender meus acertos e erros nas performances. Minha pior apresentação foi num ballet moderno. Eu estava tão, mas tão consciente de mim mesma, que fiquei com cara de assustada durante toda a coreografia. Por conta disso, os movimentos não tiveram a força que deveriam ter. Ficou frouxo, não foi legal. Por outro lado, na minha melhor apresentação, que era uma mistura de ballet clássico com samba, eu consegui “esconder” alguns erros porque estava super na personagem, sambando na ponta que nem louca e sorrindo pra plateia. Dá pra me identificar no vídeo facilmente pela movimentação frenética de braços. hahahahaha

Muitas vezes, por sermos mais velhas, ficamos com vergonha de parecermos ridículas no palco. Mas não precisamos ter medo. Tem hora que o ridículo é bom.

Divirta-se!

Um festival, é acima de tudo, a hora de nos sentirmos especiais e felizes por dançarmos ballet. Ficar nervosa, estressada e ansiosa é normal, mas eu acredito que a gente deve curtir o momento e se divertir.

Sim, essa sou eu. 🙂

Assista os vídeos, veja as fotos, mas seja bondosa consigo mesma. Veja o que você melhorou. Assistindo os vídeos do ano anterior e o desse ano, consigo perceber nitidamente que minhas pernas estão mais altas e que meu balance está infinitamente melhor. Temos que pensar em melhorar? Claro. Mas ficar comparando você mesma com a Svetlana Zakharova não vai te ajudar em nada.

*

Só quero agradecer minhas colegas bailarinas e minha professora/coreógrafa/organizadora de festival/amiga (Gizeli, estou falando de você no blog sim!) por todos os festivais. Adorei dançar em todos. Cada coreografia teve um lugar no meu coração. Obrigada por me ajudarem a acreditar que eu podia dançar.

*

E vocês, bailarinas de depois dos 20, quais são as suas experiências e dicas para os festivais? Como vocês lidam com os nervosismos, erros e carões?

Sobre o Autor

Melissa de Sá administrator

Melissa é escritora e fica hiperativa com açúcar. É autora da distopia Metrópole: Despertar, publicada pela Editora Draco em 2016, e do livro infantil A Última Tourada, adotado em centenas de escolas no Brasil. Tem contos publicados em diversas antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento.

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