“Mother”, de Lita Ford (ou como você se surpreende com algumas coisas)

porMelissa de Sá

“Mother”, de Lita Ford (ou como você se surpreende com algumas coisas)

Essa foi uma das vezes eu que eu fui surpreendida por gostar de alguma coisa que achei que nunca gostaria. Contra todos os motivos óbvios embasados no meu gosto musical, tipo psicológico e chatice aguda, ouvi “Mother”, nova música da Lita Ford, e, estranhamente, gostei.

Oi vida, me explica isso?

Continue lendo pra entender o meu drama.

Eu nunca fui fã da Lita Ford. Sempre achei que, apesar de ser uma excelente guitarrista, ela desperdiçava talento com músicas medíocres e declarações sexuais escandalosas. Não tenho como dizer o quanto eu odeio aquela famosa foto da bunda de fora nos anos 80 e em como ela associou rock, sex appeal e ser mulher do jeito mais tenobroso e  sexista possível (e com músicas ruins ainda, diga-se de passagem).

Veja bem, Lita tem talento. Adoro os solos dela em The Runaways, principalmente “I Love Playing With Fire” e músicas de autoria dela na banda como “Trash Can Murders” e “I’m a Million” são bem legais. Mas a carreira solo da Lita me dá uma preguiça imensa, até uma vergonha alheia básica. Ninguém merece.

No entanto, lá estou eu no Facebook quando vejo uma atualização da Victory Tischler-Blue (sim, a Vicki Blue, ex-baixista das Runaways) sobre o novo vídeo que ela produziu com Lita. Eu gosto bastante do trabalho da Vicki como diretora, tanto no documentário Edgeplay: a movie about The Runaways (que eu sempre esqueço de resenhar aqui, aliás) tanto nos clipes que ela dirigiu pra Suzy Quatro. Acho que a Vicki tem bastante sensibilidade em termos de imagem e cria coisas simples, mas muito bonitas.

Então eu achei que valeria a pena ver o clipe de “Mother”, mesmo não gostando nadinha da Lita Ford. Meu preconceito com a música aumentou quando eu cliquei nesse link aqui antes pra saber mais informações sobre a música e fiquei sabendo que era uma obra dedicada aos filhos de Lita. Na hora meus olhos reviraram. Isso porque na minha experiência, essa coisa de “fiz essa música pra você” sempre cai naquela coisa sentimental barata e pobretona artisticamente. Okay usar isso como terapia, mas daí a divulgar…

Beleza. Munida de todos os preconceitos possíveis contra Lita, sua música, sua inspiração pelos filhos e coisa e talz, fui assistir o vídeo. E não é que me surpreendi?

O vídeo de Vicki Blue é bem feito. Gosto dos tons azuis que ela costuma usar, do aspecto desértico de tudo, do jeito que ela retrata mulheres de um jeito mais cru. Isso é praticamente surreal hoje em dia. Quer dizer, como assim mostrar que uma mulher está envelhecendo? Por que não usar efeitos digitais pra esconder a mão enrugada de Lita ou mesmo sua pele de aspecto seco? Bem, eu digo que a beleza do vídeo está justamente aí.

Lita é uma mulher de mais de 50 anos. É uma mulher bonita e está bonita no vídeo de Blue. Seu cabelo tem um corte bacana, ela usa roupas legais e maquiagem, ela malha e é magra, mas dá pra ver que ela tem a idade que tem. E bem, qual o problema disso? Qual o problema de envelhecer? Por que tanta gente fica incomodada com esse tipo de coisa? (vou parar por aqui porque isso dá assunto pra uns dez posts)

Mas além de gostar do vídeo, eu gostei da música. Não sei, achei que foi bastante sincera. Tanto a letra quanto a música em si. Gostei do solo de guitarra, gostei até da voz da Lita (ah é, porque tem isso de que eu odeio a voz da Lita rs). É um lamento de uma mãe que não pode mais ver os filhos e é um lamento bonito. Bem produzido, bem gravado e, principalmente, bem sincero.

Me senti meio idiota, sabe, pensando que ia odiar a música já de antemão. Me fez pensar no quanto eu sou preconceituosa ainda e no quanto ainda tenho que melhorar nessa coisa de não julgar pessoas e situações. Não vou colocar a música no meu celular, não vai entrar na minha coleção de favoritos, não vou ficar ouvindo o tempo todo. Também não vou começar a gostar da Lita e achar que as outras músicas dela são boas. Mas essa é e mereceu uma chance.

Porque tudo na vida pode mudar. Nossas perspectivas, nossas posições. Até a Lita Ford.

Esse vídeo é usada na campanha contra Alienação Parental. Pra quem não sabe, Lita é proibida de ver seus filhos desde o divórcio.

Sobre o Autor

Melissa de Sá administrator

Melissa é escritora e fica hiperativa com açúcar. É autora da distopia Metrópole: Despertar, publicada pela Editora Draco em 2016, e do livro infantil A Última Tourada, adotado em centenas de escolas no Brasil. Tem contos publicados em diversas antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento.

2 Comentários até agora

Juliana PiresPostado em2:32 pm - maio 8, 2013

Também não sou muito fã da Lita, eu não conheço muito bem a história dela, mas essa coisa de símbolo sexual que ela construiu não me agrada. Eu entendo muito bem o que você falou sobre essa coisa de preconceito, já passei por isso algumas vezes, e quando resolvi experimentar, me surpreendi.

bjks

    Melissa de SáPostado em1:03 pm - maio 12, 2013

    Ju, essa coisa de símbolo sexual me incomoda demais. Inclusive, não consigo assistir vídeos da Lita na década de 80 justamente por causa disso. É muita insinuação sexual pro meu gosto e de um jeito bastante submisso. Inclusive, Lita mal toca guitarra nessa época. Ela mal aparece com o instrumento e os solos são feitos por outras caras. Claro, pro público alvo dela na época, mulher tocando guitarra não é interessante, mas mulher engatinhando no palco é.

    Mas foi bacana ver essa música dela agora. Ela tocou, ela que fez e o clipe não tem apelo nenhum. No fundo, a Lita tem talento.

    bjs!

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