Escrevendo… “A Morte do Cisne”

porMelissa de Sá

Escrevendo… “A Morte do Cisne”

Olá queridos leitores! Cada vez mais tenho recebido e-mails e mensagens de pessoas me perguntando sobre o processo de escrita e como é que se organiza para escrever um livro ou um conto. Bem, isso é algo bem individual. Eu inclusive já comentei meu processo de escrita nesse post aqui.

Mas eu acho interessante pensar sobre o assunto, até porque acho que são vários os processos de escrita e trocar figurinha com outros escritores é sempre legal. Além disso, alguns leitores têm uma visão errada do que é escrever algo criativamente. Além disso, ajuda muito pensar sobre nossos próprios processos. hahahaha Nos ajudar a ficar mais conscientes.

Tudo começa com uma ideia. Mas só começa.

Dessa vez eu vou falar um pouco sobre o processo de escrita do conto “A Morte do Cisne” que eu publiquei no livro Noites Negras de Natal e outras histórias.

Eu tive a ideia para esse conto num ônibus. Sério. Eu estava indo pra faculdade, tinha uma reunião com minha orientadora, quando de repente a coisa clicou na minha cabeça.

Já fazia um tempo que eu queria escrever uma coisa meio assustadora e meio dramática, mas não sabia o quê. Eu acabava descartando as ideias que tinha. Mas a ideia para esse conto apareceu enquanto eu pensava em histórias aparentemente tranquilas que são na verdade assustadoras em essência (tipo contos de fadas). Quer coisa mais assustadora que O Lago dos Cisnes?

Porque por trás de todos esses cambrés, existe uma alma triste e desconsolada…

Uma adolescente é sequestrada por um mago negro sinistro e transformada num cisne, tendo poucas horas na forma humana todas as noites. De repente, ela conhece um cara que tem o poder de quebrar o feitiço e acaba se apaixonando por ele, mas tudo vai por água abaixo quando este simplesmente confunde a menina com outra! Desesperada e tentando fugir, a adolescente vai pro meio da floresta, mas o mago negro a encontra e começa a torturá-la psicologicamente. Quando o tal cara percebe o erro que cometeu, volta pra pedir desculpas, mas é tarde demais. Assim, a adolescente entra em tal desespero que se atira de um penhasco!

Tem algo profundamente perturbador aí. Okay, entendo que é uma obra Romântica e que segue as características desse estilo, mas sempre teve algo que me fez pensar sobre isso. Quer dizer, o que leva alguém a tamanho desespero? Como é viver numa maldição dessas dia após dia após dia?

Eu comecei a pensar nisso dentro do ônibus e então me veio a ideia do conto. Um conto sobre o finalzinho dessa história toda, sobre o que estaria passando na cabeça da Odette no momento logo depois da fuga para a floresta e antes do suicídio.

Algumas frases surgiram na hora assim como a perspectiva da narração. Imediatamente, eu percebi que tinha que ser narração no presente, em primeira pessoa, a partir da perspectiva da Odette. Tinha que ser assim se eu quisesse que a ideia perturbadora funcionasse. Logo depois me veio a questão de fazer um diálogo interno. Como se Odette estivesse falando com o príncipe.

Eu estava dentro do ônibus e tentei me concentrar o máximo que pude nessas questões, a fim de não esquecer. Assim que cheguei na faculdade, peguei um bloquinho e anotei tudo que tinha pensado até então. Isso é importante: por mais que nossa memória às vezes pareça fantástica e que uma ideia pareça simplesmente “boa demais para esquecer”, essa é uma premissa falsa. Nós sempre esquecemos. Sempre. E depois não adianta chorar o leite derramado.

As notas que fiz para a criação do conto “A Morte do Cisne”.

A partir das notas do caderninho (que inclusive incluíram algumas frases que estão no conto), fui desenvolvendo a história. E se engana quem pensa que a coisa toda fluiu maravilhosamente bem. Trabalhar num conto não é uma conexão direta com nenhuma divindade. Dá trabalho. Dá dor de cabeça. Eu mesma costumo ter dor de cabeça quando escrevo (alguém mais aí sofre disso?). Me sinto cansada depois.

Esse conto especificamente foi escrito rápido (mais ou menos dois dias), mas fiz inúmeras alterações. Acrescentei partes, mudei outras. No total, devo ter ficado uns cinco dias mexendo. Normalmente demoro ainda mais para pensar num título, mas este já estava dado para mim desde o começo. Foi uma das raríssimas vezes em que pensei no título pouco depois de ter a ideia de uma história.

Então é isso: por mais que a ideia inicial seja aparentemente boa, ainda existe muito trabalho pela frente até que um conto esteja pronto. Eu costumo fazer tópicos (vocês podem ver na imagem ali de cima) e anotar palavras-chave bem como o tipo de narração e o nome dos personagens. Uma coisa importante é não ter medo de errar, de escrever de novo. Eu defendo que como escritores, temos que ser os primeiros críticos de nós mesmos. Afinal, se nós achamos que uma coisinha está errada (por menor que seja), como vamos esperar que o leitor não ache?

O Lago dos Cisnes é um dos meus ballets favoritos e posso dizer que busquei inspiração na performance de 2005 do American Ballet Theater para fazer esse conto. Pra mim, Gillian Murphy é a melhor bailarina que já fez Odette nos palcos. Talvez ela não tenha a melhor técnica, talvez ela saia do eixo nas piruetas, mas ela é a única que me faz chorar.

Não vou dizer que meu conto é uma versão escrita do ballet, mas o ballet me influenciou na hora de selecionar as cenas e de encontrar a voz certa para Odette. Vai aí o vídeo do finalzinho de O Lago dos Cisnes. Já aviso que é de cortar o coração.

Uma vez escrito, eu não me atrevo a falar do significado do texto nem do que eu supostamente “quis dizer” com ele. Sou da opinião que uma vez publicado, o texto pertence ao leitor e que é ele quem deve discutir as coisas. Algumas pessoas me disseram que esse conto é poético e outras que ele é perturbador. Mas eu só acho que no fim das contas é O Lago dos Cisnes que é isso: algo poeticamente perturbador.

Eu agradeço muito a Karen Alvares e a Nívia Fernandes, que foram minhas revisoras. Elas são incríveis! E essa é outra dica: tenha revisores rigorosos em que você confia. 🙂

“A Morte do Cisne” está no livro Noites Negras de Natal e outras histórias juntamente com outros três contos ótimos. Você pode adquirir o seu exemplar  ebook por apenas R$2,99 na Amazon.br e na Kobo.

Sobre o Autor

Melissa de Sá administrator

Melissa é escritora e fica hiperativa com açúcar. É autora da distopia Metrópole: Despertar, publicada pela Editora Draco em 2016, e do livro infantil A Última Tourada, adotado em centenas de escolas no Brasil. Tem contos publicados em diversas antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento.

2 Comentários até agora

Karen AlvaresPostado em11:43 am - abr 15, 2013

Mel, adorei saber como foi o processo de escrita desse conto maravilhoso! Também faço isso como você, mas acho que você me pareceu mais organizada… hahaha xD Eu tenho um caderninho, mas as ideias são meio jogadas nele, uma salada de ideias.
Ah, e eu fiquei tão feliz de estar ali na lista de revisoras queridas junto com a Nik! xD

    Melissa de SáPostado em12:59 pm - maio 12, 2013

    Kakazinha, acho que a impressão de organização é só uma impressão mesmo. hahahaha Acho meus rabiscos bastante caóticos, mas eles realmente me ajudam a começar a escrever. Já percebi que se começo sem um esquema, o risco de eu me perder ou escrever uma coisa muito grande é bem maior.

    Ah, você é uma das minhas revisoras queridas! Com certeza, vocês fazem toda a diferença do mundo na preparação dos meus textos. 🙂

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