Ballet depois dos 20 anos – Parte II

porMelissa de Sá

Ballet depois dos 20 anos – Parte II

Cinco meses atrás, eu fiz este post contando como foi recomeçar no ballet clássico depois de uma década. Falei um pouco das dificuldades que nos impedem de começar e do preconceito que algumas pessoas têm. Agora, quando essa minha empreitada de dançar está prestes a completar um ano, decidi que é tempo de listar as maiores dificuldades que alguém nessa faixa etária tem quando começa a fazer ballet e como lidar com tudo isso…

E não desanimar!

Vamos assumir: nós não temos aos 20 anos a mesma flexibilidade, agilidade e adaptalidade que tínhamos aos 10. Então é óbvio que ninguém vai por a perna atrás da cabeça e saltar no mesmo ritmo de uma criança. Mas nós temos uma coisa que crianças não têm: maturidade. E é isso que é preciso usar na hora de voltar (ou começar) pro ballet numa outra fase da vida.

1. Alongamento

Quando converso com algumas pessoas sobre fazer ballet depois de adulto, a primeira coisa que todo mundo pensa é no alongamento. Óbvio, uma das associações mais comuns ao ballet é mesmo aquela perna estendida lá em cima, aquela abertura 180 graus. Eu conheço gente de 20 que tem pânico de alongar do mesmo jeito que conheço gente que aos 40 encosta a mão inteira no chão com a perna esticada sem nem piscar.

Questões de genética à parte, eu acho que desistir do ballet por causa de alongamento é bobagem. Primeiro porque ninguém precisa começar já fazendo abertura completa e segundo porque alongamento é algo que se adquire com o tempo (salvo em casos mais sérios em que uma doença ou machucado está envolvido). Alongar todo dia de manhã é uma boa (e não só pra quem faz ballet depois de mais velho) e com os próprios exercícios a gente vai melhorando. Eu lembro que na minha primeira aula de barra, meu detiré ao lado era baixo e minha perna queimava de dor. Hoje isso não é mais um problema.

Claro que não existe alongamento 100% sem dor, principalmente pra quem está sem fazer a muito tempo. Eu, particularmente, tenho uma boa resistência à dor. Então eu forço mesmo. Se eu parei, pode saber que é porque não aguento mais. Se é pra fazer abertura, então vamos fazer. Sem mi mi mi. “Ah, eu não consigo.” Tenta mesmo assim. Afinal, ninguém melhora alongamento só de olhar os outros alongando. A primeira vez que fiz uma abertura de frente, tinha uns três palmos de distância entre minha virilha e o chão. Na última aula eu finalmente consegui. Maravilhas do corpo humano! rs

2. En dehors

En dehors (ou turnout) é o famoso “joelho pra fora”. A maioria dos exercícios no ballet clássico é feito en dehors. Para crianças, isso não é problema, porque o joelho vira pra fora na maior facilidade. Mas para nós, adultos calejados, já não é tão simples assim. Fechar uma quinta posição pode ser uma experiência dolorosa.

Primeira posição. En dehors.

Mais uma vez, algumas pessoas são abençoadas geneticamente com um en dehors natural. Outras, não. Eu estou no último grupo. O que eu fiz pra superar isso? Nada. Isso mesmo, nada. Eu só percebi que se ficasse reclamando que meu joelho não fica pra fora, não ia adiantar em nada. Que é que eu posso fazer? Nascer de novo? Arrumar pernas novas com joelhos que não sejam pra dentro (ah, é, eu tenho o joelho pra dentro ainda)?

Eu faço os exercícios e forço até onde dá. Não vou estourar meu joelho nem meu calcanhar. (Até porque não adianta só forçar o pé ou o joelho, en dehors tem que sair de cima da perna, lá no fêmur) Melhorou com o tempo? Pouco. Muito menos que o alongamento. Paciência.

3. Pensar em si mesmo

Ficar se comparando aos outros não leva ninguém a lugar nenhum e no ballet não é diferente. Se a sua colega coloca a perna atrás da cabeça e faz um developpé na orelha e você não, bem, essa é a vida. Não adianta nada se sentir o pior ser humano do mundo por causa disso. Até porque todo mundo tem pontos fortes e fracos, a questão é focar na coisa certa.

Isso significa esquecer completamente tudo aquilo que você não faz bem? Não. Significa apenas pensar mais no positivo. Eu tenho um problema sério com exercícios que têm que forçar a coxa, como developpé, por exemplo. Mas ao invés de ficar miando que não consigo subir a perna mais que 37 graus (rs), eu tento pensar que em outras coisas eu me dou bem. Isso não quer dizer que não vou fazer developpés nem pensar neles, quer dizer que quando eu for fazer, não vou ficar me cobrando nem me sentir deprimida porque minha perna não está subindo.

E a palavra de hoje é… paciência.

Eu conto os graus que a minha perna sobe. hahaha Hoje ela sobe mais que antes, é um progresso lento, mas é uma questão de foco. Eu gosto de pensar em mim mesma e nas minhas limitações, assim, ao invés de ficar triste porque as outras alunas estão com a perna lá em cima, eu fico feliz porque a minha está fazendo progresso. Lento, mas está.

4. Condicionamento físico

Engana-se quem pensa que ballet não cansa e que tudo é lento e bonito. Inclusive, as coisas lentas e bonitas exigem um esforço absurdo. Nessas horas uma coisa que pesa é mesmo o condicionamento físico. Aguentar um ensaio de coreografia ou mesmo uma aula de centro não é brincadeira e garante umas boas paradas para beber água.

Mas claro que existe uma alegria besta em saltar… Eu pelo menos acho! 🙂

Confesso que não tive muitos problemas com condicionamento físico no ballet porque antes de começar na dança, eu fazia Jump Fit há alguns meses. Talvez essa seja uma boa estratégia: para quem é sedentário total e quer voltar a dançar, é interessante aliar algumas atividades aeróbicas com o ballet clássico. Inclusive, conheço gente que faz isso, mesmo que seja correr na rua de casa.

Claro que com o tempo de ballet a gente vai melhorando com os próprios exercícios, mas eu sou da opinião que se dá pra complementar com alguma coisa e temos a disponibilidade, por que não?

5. Estudo


O ballet clássico tem um vocabulário próprio praticamente todo em francês. As aulas normalmente são estruturadas em sequências que usam esses nomes. Algumas sequências são difíceis de decorar. O que fazer????????

Eu sou uma pessoa com alguma dificuldade de concentração (é sério, ninguém acredita quando eu falo isso, mas eu tenho sim), então normalmente eu demoro para decorar sequências. A minha estratégia normalmente é: prestar bastante atenção na demonstração, observar alguma colega fazer e depois tentar fazer eu mesma, sem copiar. Óbvio que na hora da aula, quando a música está tocando, a gente cai na tentação de copiar das colegas e eu sei que isso sempre dá errado (afinal, assim a gente não aprende o exercício nem memoriza direito, fica só imitando), mas é difícil resistir. Estou tentando trabalhar nisso. hahahaha

Um quadro lindo, não resisti.

Uma coisa que me ajuda é mesmo estudar. Acompanho vários blogs sobre ballet, a maioria deles escrito por alunas adultas. Neles, fico sabendo das dificuldades que cada uma tem, experiências de superação, dicas e tutoriais. Um dos que super recomendo é o Dos Passos da Bailarina, que além de ter dicas ótimas, traz reflexões super interessantes sobre a dança.

O que funciona pra mim é ler sobre o assunto. Eu sei, pode parecer chato, mas ler sobre ballet clássico te ajuda a entender porque você está fazendo todos aqueles exercícios! Isso me traz alguma conforto e segurança  (além do mais, eu tenho um perfil nerd hahahaha). Eu gosto de saber o objetivo da cada exercício: o que ele está trabalhando, no que aquilo vai me ajudar no futuro.

Outra coisa que eu acho fundamental: assistir vídeos. Isso mesmo, assistir vários vídeos de ballet clássico, desde as grandes montagens de ballet de repertório até a vídeos pequenos de variações solo. É um grande exercício. Você começa a perceber quais movimentos estão sendo feitos e a fazer um link entre as suas aulas e a dança. Isso é importante. Além do mais, quem é que não gosta de assistir ballet, né?

[E pra quem quiser aproveitar o ensejo, eu recomendo uma das minhas partes favoritas, de um dos meus ballets favoritos: “Swanilda e suas amigas”, Ato I, Coppélia]

O estudo é uma ferramenta que os adultos têm ao começar na dança. Uma criança de 8 anos não vai pesquisar na internet sobre movimentos do ballet clássico, ela vai executá-lo e talvez, mais tarde na vida, finalmente entendê-los a um nível intelectual. Nós adultos já podemos aliar as duas coisas ao mesmo tempo: aprender na prática e na teoria. Acreditem, isso ajuda mesmo.

*

Bem, é isso. Eu só queria agradecer todas as pessoas que me mandaram e-mails e fizeram comentários no meu último post sobre assunto. Fico feliz que vocês tenham achado útil e podem esperar que vou escrever mais sobre isso. Não deixem de comentar.

Só não se esqueçam da diversão!


Sobre o Autor

Melissa de Sá administrator

Melissa é escritora e fica hiperativa com açúcar. É autora da distopia Metrópole: Despertar, publicada pela Editora Draco em 2016, e do livro infantil A Última Tourada, adotado em centenas de escolas no Brasil. Tem contos publicados em diversas antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento.

8 Comentários até agora

Cássia PiresPostado em2:42 am - abr 28, 2013

Você indicou o “Dos passos da bailarina”! =D E amei o post.

Imenso beijo.

izaPostado em9:36 pm - out 5, 2013

oi, querida a unica coisa errada em seu post e falar que toda criança começa foda no ballet e

    Melissa de SáPostado em2:49 pm - out 6, 2013

    ??? Eu não falei que toda criança começa foda no ballet. Eu disse que as crianças possuem algumas facilidades físicas (principalmente para en dehors) que muitos adultos não têm. 🙂 Mas claro que alguns adultos também têm facilidades. Conheço gente que tem um super alongamento ou mesmo uma perna alta natural, mesmo depois de certa idade. Isso é relativo. Mas não podemos negar que em alguns aspectos, as crianças têm vantagem por serem mais “maleáveis” fisicamente.

ElainePostado em3:44 pm - maio 27, 2015

Oi Mel!

Gostei muito do seu blog!
Eu estou fazendo uma aula de dança (não é ballet, dança com ritmos latinos mesmo) que eu gosto muito e a professora é também, bailarina desde os 6 anos. Ela tem uma elasticidade incrivel! No final da aula tem alongamento e eu fico admirando como ela consegue colocar as pernas onde ela quiser.. rsrs Minha irmã também faz a aula e eu comentei com ela né.. Será que uma coisa dessas tem que aprender desde criança mesmo pra saber fazer? Será que se eu treinar alongamento todo dia um pouquinho eu não consigo fazer igual? Que um pouco de elasticidade a gente consegue conforme consegue treinar eu sei, mas quero dizer fazer uma abertura completa, coisa que nunca fiz na vida, nem quando eu era criança e hoje tenho 28 anos. Minha irmã acha que é impossível. Mas tem aquela frase “Não sabendo que era impossível, foi lá e o fez”. Fiz uma busca na internet sobre elasticidade, alongamento na vida adulta e acabei chegando no seu blog. Acho ballet incrível, mas também nunca me achei capaz de começar algo depois de já ser grandinha 😉 Sabe, suas postagens I e II sobre o assunto que acabei de ler, achei bem interessantes e inspiradoras! Até me deu vontade de me inscrever em ballet, que também tinha na cabeça que ou começa quando criança ou já era. 😉
Também adorei suas postagens com resenhas de livros! Vou continuar lendo os outros artigos sobre ballet e outras coisas legais que posta 😉

    Melissa de SáPostado em1:34 pm - jun 28, 2015

    Elaine,

    Que bom que você gostou do blog! Espero ver você mais por aqui!

    Alongamento é algo que se ganha com o tempo, a não ser que a pessoa tenha algum problema muscular. Mas no geral, conseguimos melhorar muito com o tempo, é só treinar todo dia. Eu mesma não conseguia fazer aberturas, hoje consigo justamente porque fui fazendo um pouquinho a cada aula. Não é impossível!

    Faça ballet sim, você não vai se arrepender! É pra todas as idades. 🙂

LaísPostado em7:16 pm - dez 22, 2016

Adorei seu post e seu blog! Me deu a motivação que encontrava pra voltar a dançar, parei quando eu tinhas uns 12 anos e hj com 20 anos a vontade de dançar esta gritante estava bem desanimada mas vc me deu uma nova perspectiva! Obrigada 🙂

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