Outro encontro musical apocalíptico: Heart e Fergie

porMelissa de Sá

Outro encontro musical apocalíptico: Heart e Fergie

O mundo do rock está em apocalipse. É sério. Os anjos irão descer dos céus com suas espadas flamejantes. Um meteoro está vindo de encontro com a terra. O aquecimento global vai aumentar. Como você preferir.

Depois de Joan Jett cantando com Miley Cyrus no programa da Oprah e Brian May considerando Lady Gaga para ser a vocalista do Queen em sua nova turnê eu pensei que dificilmente veria algo que me arrepiaria os cabelos. Quer dizer, sempre tem alguma coisa pra me deixar assustada, mas juro que não pensei que veria uma coisa tão tosca quanto isso aqui.

Fergie e Heart. Okay. Na hora que vi o título vagando no Youtube não pensei que seria tão horrível. Mas foi. Por que?

Fergie é a vocalista feminina do Black Eyed Peas uma banda de… rap? pop? Enfim. Ela tem 36 anos, mas parece e age como se tivesse 20. Em meio a um bando de músicas super pop e chapadas que canta, de vez em quando ela mostra um pouco de seu talento vocal. Como em Big Girls Don´t Cry, por exemplo.

Não acho que Fergie cante mal, só acho que ela representa várias coisas que eu não concordo. Ela se coloca na posição de mulher-objeto e a própria confessa isso e inclusive já fez músicas sobre o assunto. De uns tempos pra cá (pelo que chequei no Youtube, desde 2008) ela tem apresentado esse cover de “Barracuda”, do Heart, em seus shows, sempre vestindo peças de couro preto e se esfregando no palco. O que sinceramente, não tem nada a ver com a música.

Já o Heart é famoso pelas irmãs Ann (vocal) e Nancy Wilson (guitarra/violão/vocal) que na década de 70 mesclavam folk, metal e hard rock e tiveram em “Barracuda”  um de seus grandes hit.

A banda teve inúmeros integrantes, mas Ann e Nancy permaneceram como uma constante, sempre tocando juntas, apesar da ocasional carreira solo de Ann.

 O Heart está aí na ativa entre indas e vindas desde 1975 e tem no currículo nada menos que 20 hits no top-40 da parada da Billboard!!!! E em 2010 conseguiu voltar para o top-10 com o album Red Velvet Car no topo das paradas!

Primeiro vou dizer que não tenho nada contra covers e acho que cantores pop podem sim fazer bons covers de rock. Meu problema com o cover da Fergie de “Barracuda” é a atitude imbecil dela nesse vídeo. Sim, imbecil. Ela entra no palco no segundo verso se sentindo a rainha do pedaço e sequer chega perto de Ann e Nancy Wilson que ficaram praticamente escondidas no cantinho do palco. Achei uma falta de respeito. Se você está fazendo o cover COM o artista original, o mínimo que você tem que fazer é chegar lá perto e talz e/ou criar uma atmosfera amigável.

Fergie se sente a gostosa o vídeo inteiro: rola no chão, faz careta, se esfrega, mostra seu corpinho maravilhoso pra todo mundo ver com direito até mesmo aos saltos mortais patéticos no final. Tudo para mostrar que ela está em boa forma e a mensagem que ficou foi a de “eu sou uma diva e essas mulheres são velhas e gordas”.

Somente no final da música é que Fergie chega perto das irmãs Wilson num pseudo abraço. E é quando elas cantam juntas que é percepítival a total ausência de personalidade do vocal da Fergie: ela tá cantando igualzinho a Ann Wilson! Com a mesma intonação, só que sem a interpretação revoltada que dá lugar à interpretação to-me-sentindo-toda-toda-e-gostosona.

Ué, mas cantar igual não é o ápice do cover? Bem, é sim, se você é uma banda cover oficial. Mas Fergie não é de nenhuma banda cover, ela é uma cantora profissional e devia sim imprimir sua marca vocal, não ficar treinando junto com o cd a fim de aprender a cantar como se fosse outra pessoa.

Isso fora o erro crasso de interpretar “Barracuda” como uma música sobre ser sexy e gostosa. “Barracuda” é o tipo de música fuck YOU e não fuck ME como sabiamente (que raridade!) disse um comentarista do vídeo noYoutube. É parte da atitude década de 70. Ai ai ai, Fergie. Que feio. Uma coisa é ter sex appeal, outra é virar um objeto sexual pura e simplesmente.

Nessa vídeo Fergie mostrou que tem potência vocal pra aguentar cantar e fazer acrobacias ao mesmo tempo, mas mostrou uma atitude péssima de coleguismo. Porque seu estrelismo de chegar no palco e cantar sozinha deixou Ann Wilson paradona, sem o que fazer. Poxa, tinha que fazer toda aquela exibição? Não bastava homenagear uma música que você gosta junto com uma banda que te inspirou? O objetivo de cantar JUNTO com alguém não é justamente cantar JUNTO?

E não, não estou sendo invejosa. Nem vou responder que vier com esse argumento. Também não sou uma fã fanática do Heart nem estou questionando o talento da Fergie, só estou criticando a atitude pouco amigável dela. Sinceramente? Agora até prefiro a Miley Cyrus… rs

“Barracuda” em sua versão original:

Sobre o Autor

Melissa de Sá administrator

Melissa é escritora e fica hiperativa com açúcar. É autora da distopia Metrópole: Despertar, publicada pela Editora Draco em 2016, e do livro infantil A Última Tourada, adotado em centenas de escolas no Brasil. Tem contos publicados em diversas antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento.

9 Comentários até agora

Manoela MacedoPostado em12:30 am - out 22, 2011

Eu sempre fico admirada quando vejo seu blog e você diz tudo o que eu também diria. Tudo o que eu li até agora são coisas que eu mesmo poderia ter escrito. haha. Concordo contigo, ela desrespeitou totalmente a banda. Pensei que não veria coisa pior depois da Miley, isso me surpreendeu MESMO. Eu nem estou acreditando, acho que o que ficou faltando foi ela tirar a roupa e ficar pelada no meio do palco, depois daquelas piruetas ridículas pra mostrar ser melhor do que as próprias cantoras. Fiquei com nojo da Fergie depois disso, ficou muito perceptível o desprezo dela pela Ann e pela Nancy, ela quis o show só pra ela. Também não sou uma fã louca de Heart, mas isso foi a coisa mais ”WTF” que eu já vi…

    MelissaPostado em3:05 pm - out 22, 2011

    Que bom, Manoela. hahahaha Somos sister de pensamento musical então… hahahaha

    Pois é, muita falta de respeito. E eu realmente esperava que ela realmente fosse tirar a roupa (daquele jeito stripper que sai rasgando tudo de uma vez, sabe?) e ficar só de lingerie no palco. Ainda bem que ela não foi tão longe… Se bem que as piruetas já foram ofensivas o suficiente. Nos vídeos relacionados a essa apresentação dela com o Heart tem alguns vídeos de ela tocando com o Slash usando um shortinho (ela, não o Slash, graças a Deus… rs). Decadência pura.

Manoela MacedoPostado em10:04 pm - out 22, 2011

hahahaha, é, pelo menos não é o Slash usando shortinho, mas ela também se mete a cantar com gente que pelo visto ela nem liga. Nem me surpreendo mais se ela aparecer cantando One Way Or Another com a Debbie Harry, tirando a roupa e se esfregando nos caras da banda. Mas vou bater na madeira pra garantir que isto não aconteça. hahahaha

    MelissaPostado em12:57 pm - out 23, 2011

    Putz. Imaginei uma coisa horrível aqui: imagina Britney Spears com Debbie Harry!!!!

    Mas o bom é pensar que existem pessoas como você no mundo aí fora, Manu, e que eu não sou a única a pensar que essas coisas são ridículas. Me faz pensar que o mundo ainda tem jeito.

      Manoela MacedoPostado em9:13 pm - out 23, 2011

      hahaha, ficaria parecendo a versão de I Love Rock N Roll que ela fez anos atrás… Espero não me deparar mais com coisas desse tipo. haha.
      Ah, e obrigada, eu gosto muito de bandas antigas e é realmente meio difícil encontrar alguém da minha idade que goste das mesmas bandas que eu. Claro que eu também gosto do novo, mas o que me encanta mais é o passado, onde tudo começou e era tudo tão mais empolgante. Esperar com ansiedade os discos chegarem nas lojas, valorizar tanto um show ao vivo da banda que gosta, usar cortes de cabelo exóticos. Acho que os jovens viviam mais, valorizavam mais as coisas. Agora somos um tanto acomodados, baixamos o que quisermos na internet e tudo é tão efêmero. É como se eu sentisse saudade de uma época que eu nunca vivi. haha (:

        MelissaPostado em10:52 am - out 24, 2011

        Eu também gosto de bandas novas, mas entendo o que você quer dizer com essa coisa de saudade de uma época em que nunca esteve. Eu acho que o que existia era uma maior valorização do artista/banda, até porque LPs eram caros e pra ver ao vivo, só no show mesmo. Hoje podemos baixar milhares de vídeos, de milhares de artistas e acho que não nos apegamos tanto às bandas quanto o pessoal antigamente. Fora que por conta da dificuldade de partilhamento de informação, havia pouca coisa sobre os ídolos disponíveis (só o que aparecia em revistas) então havia uma margem pra fantasia mesmo… imaginar o seu ídolo, o que ele gostava, bla bla bla. Hoje com Twitter, Facebook e bla bla bla, sabemos até a cor da roupa íntima da pessoa e sem perguntar. rs Claro que adoro rede sociais e nov a tecnologia, mas acho elas tiraram um pouco do brilho e do glamour dos astros da música.

        Poxa, e quer coisa mais linda que um LP?

Manoela MacedoPostado em5:51 pm - out 24, 2011

Sim, é verdade, era tudo mais emocionante e fantasioso mesmo. E LP é lindo mesmo! (:

JulianaPostado em5:56 pm - out 26, 2011

Concordo com o que as meninas disseram acima, eu adoro bandas antigas, e o sentimentos que os fãs tem por essas bandas atravessam décadas, passa de pai para filho, é algo realmente maravilhoso. Quanto a Fergie, ela só faz sucesso erotizando tudo que canta seja solo ou com o grupo, ela vende a imagem, fico me perguntando se esse tipo de artista gosta de ser cantor mesmo ou só encontrou uma forma que deu certo, e toda vez que lança um cd vc encontra sempre as mesmas baladinhas. Olha as vezes me pego pensando na efervescência da música na década de 70 e como eu queria ter vivido essa época. Eu tenho saudades tb de épocas que não vivi.

    MelissaPostado em9:03 pm - out 26, 2011

    Pois é, Juliana. Eu também me faço essa pergunta. Porque a grande maioria dos cantores hoje em dia simplesmente vende seus corpos e parece não estar nem aí pra música. Eu fico pensando o que eles realmente sentem: se ficam chateados por terem que se vender ou se acham que é isso mesmo. A Fergie em si tem até uma voz legal, mas infelizmente não explora isso e cai totalmente para o lado da mulher objeto. A música em último lugar. Triste mesmo.

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