5 Coisas que eles te falaram sobre o Feminismo (e que você acreditou)

porMelissa de Sá

5 Coisas que eles te falaram sobre o Feminismo (e que você acreditou)

Posso dizer que me tornei feminista em janeiro deste ano depois de ler a Norton Anthology of Literature by Women. Já comentei a respeito dessa leitura nesse post. Comecei a ler livros teóricos sobre o assunto – na minha área que é literatura – e a ler blogs, dentre eles o famoso Escreva Lola Escreva. Pode parecer ingenuidade, mas foi quando eu percebi que existe gente que odeia feminismo. Quer dizer, eu sempre soube que machistas existiam e que por uma consequência natural, seriam contra o feminismo. Mas eu nunca achei que as pessoas poderiam odiar tanto uma linha de pensamento e pior, odiar baseando-se em idéias completamente erradas e distorcidas. E aí vão algumas delas:

5. Toda feminista é lésbica. Se não for publicamente, é uma enrustida.

Engraçado que várias pessoas me falaram isso quando eu comecei a me auto-declarar feminista. Sério. Gente que me conhece já faz anos me olhou de um jeito estranho como se de repente eu tive ficado verde. Não pessoas, nem toda feminista é lésbica. Existem feministas lésbicas? Claro. Como também existem feministas homens (sério). Uma das grandes premissas do feminismo é a liberdade sexual, o direito de escolha da mulher sobre o que fazer com a sua sexualidade. Se ela quiser expressar sua sexualidade com outra mulher, well, é uma escolha pessoal. Mas não existe essa de feminista=lésbica. Isso foi a TV que te contou.

4. As feministas querem tomar o lugar dos homens.

Quê? Primeiro, existe um “lugar dos homens”? Existe uma linha pintada no chão onde os homens ficam com a plaquinnha “Lugar dos homens – mulheres se afastem”? O feminismo não quer tomar nada de ninguém, só quer igualdade. Ninguém vai sair por aí roubando emprego de homem ou batendo em homem na rua (isso, pessoas, é o machismo que faz). O feminismo só luta pelos mesmos direitos o que se significa que se uma mulher quiser ser piloto de avião ela tem o direito a fazer uma prova, fazer o curso e ser aprovada se tirar boas notas. Feminismo luta por direitos iguais ou seja, as mesmas chances na vida.

3. Feminista que se casa não é feminista de verdade.

Engraçado que as pessoas têm a imagem de feministas como essas mulheres frias e sozinhas, morando numa casa entupida de livros, morrendo de rancor no coração. Que isso. Se o ponto principal do feminismo é a escolha da mulher, então ela tem direito de escolher se casar. Óbvio que casamento aqui não será aquele casamento da sua vó em que ela abaixava a cabeça, fazia comida duas vezes por dia, arrumava a casa sozinha e sem reclamar. Estamos falando de casamento em que haja uma união de verdade. Ou seja, as duas partes são responsáveis pelo funcionamento da casa e da relação, partilham suas obrigações e deveres, têm os mesmos direitos e compensações. Peraí, não isso que o casamento deveria ser a princípio mesmo?

2. Feminismo e machismos são duas linhas extremistas que não devem ser seguidas.

Esse é um pensamento muito confortável para a maioria das pessoas. Aquele discurso de que feminismo e machismo são dois lados da mesma moeda e que o bom mesmo é ser neutro. Não, você não é neutro. Neutralidade não existe. O feminismo não é uma linha extremista e não tem nada a ver com mulheres no comando dominando homens. Diferente do machismo, o feminismo respeita a liberdade de expressão, a diversidade, o direito de escolha, a voz das minorias.

1. Não há lugar para lutas feministas no mundo de hoje. As mulheres já têm seus direitos garantidos por lei.

De todos os pensamentos, esse é o mais perigoso. As mulheres têm seus direitos garantidos por lei, mas essa lei se cumpre ou é eficiente? E os casos de estupro? E a violência doméstica? E a discriminação? E a categoria “vadia” aplicada para mulheres com vida sexual ativa que não são casadas? E o fato que muitas mulheres bem qualificadas perdem a chance de um emprego simplesmente porque são mulheres? E o fato de que as mulheres ganham 20% a menos que os homens? E o preconceito? E as piadas de mal gosto? E não, isso não é paranóia, é a realidade. Em dúvida, dê uma olhada nas estatísticas do IBGE ou tente dar uma analisada nas tais “crenças populares”. Você ainda tem certeza que a mulher é tratada de uma forma justa comparada a um homem?

Enfim. É isso. *respira de alívio*

Sobre o Autor

Melissa de Sá administrator

Melissa é escritora e fica hiperativa com açúcar. É autora da distopia Metrópole: Despertar, publicada pela Editora Draco em 2016, e do livro infantil A Última Tourada, adotado em centenas de escolas no Brasil. Tem contos publicados em diversas antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento.

14 Comentários até agora

MiPostado em12:47 pm - jul 3, 2011

Na verdade tu sempre foi feminista, Mel. Tu só saiu do armário em Janeiro. =D Bem-vinda!!!
Lola rules, né?

thepavaniaPostado em1:51 pm - jul 3, 2011

O que eu acho mais complicado sobre ser feminista é sair do armário mesmo. Mais uma vez, eu passei pelo processo ao mesmo tempo que vc, Mel… hahahah

Bom, é complicado porque apesar da linha feminista não ser um extremo, existem feministas extremistas. Outro dia eu tava assistindo um negócio sobre um possível lançamento de uma pílula anticoncepcional masculina, mas que não virou realidade porque o movimento feminista americano foi terminantemente contra, alegando que o direito de decidir pela procriação ou não agora era da mulher e eles não iriam “tomar” aquele direito novamente. Se os dois sexos devem ter direitos iguais, é lógico que ambos deveriam ter o mesmo acesso à contracepção.

Também, a imagem que a gente recebe de feminismo da mídia tem todas essas características que você descreveu, Mel, somado a pequenas coisas do dia-a-dia. Coisas disseminadas entre as próprias mulheres, por exemplo, a questão de pagar a conta. Tem mulher que vive sem pagar o próprio álcool ou a própria comida. Isso me fere e me deixa bastante desconfortável, e essa quebra de padrão às vezes me faz passar aperto na minha vida quando tô aqui na roça.

Enfim, até que enfim saiu esse post feminista, hein, Mel?

    MelissaPostado em10:02 pm - jul 3, 2011

    Extremos sempre existem. Inclusive, eu acho legal essa coisa de anti-concepcional masculino. Tiraria um peso das costas das mulheres, sinceramente, que quase sempre têm que arcar com essas despesas sozinhas… Fora que a maioria dos anti-concepcionais têm efeitos colaterais. E vão desde engordar até taquicardia, fadiga, sangramento fora de hora… Então seria legal dividir mais essa responsabilidade.

    ODEIO esse lance de pagar a conta. Pelamor! Os dois comeram, os dois que paguem! Claro que às vezes rola um lance solidário… Tipo você sabe que seu namorado tá sem grana e aí você paga… Quando você tá sem grana, ele paga… E assim a banda toca.

KakazinhaPostado em1:29 pm - jul 4, 2011

Acho que ainda não saí do armário… rs
Mas adorei o post, Mel. Tá perfeito. Quer dizer, que nem o número 3. Já ouvi tanta gente falando besteira porque casei cedo, que eu ia virar Amélia, me anular… Poxa, eu só casei cedo porque era o que eu queria, e sabia que meu companheiro ia dividir a vida comigo, aliás, nós nos ajudamos muito, em questão de trabalho, finanças, ou seja, como você disse, o que um casamento tem que ser. Continuo sendo a mesma. E se eu quis ter um negócio no papel e até me vestir de noiva, é uma escolha da mulher, assim como uma escolha do homem, bem como é uma escolha não querer isso também. O problema desse mundo é povo querendo meter o bedelho na vida dos outros, e povo querendo se dar bem em cima dos outros. É revoltante.
Como já foi comentado, com certeza não é o feminismo que é extremista. São algumas pessoas. Quer dizer, eu digo que às vezes não concordo com a Lola, porque ela é meio radical… e alguns comentários que eu leio lá me deixam WHAT? Uma vez eu li dizendo lá que se você não queria fazer sexo menstruada, ou seu parceiro não queria, era porque não amava o mês todo. Quer dizer… HELLO? Eu não gosto disso. Eu não quero que 90% das pessoas cheguem perto de mim quando eu tô menstruada. E principalmente não quero relações, porque não acho legal. Quer dizer, dá licença de eu querer ser assim? Powra… é a droga de querer meter o bedelho na vida dos outros. Coisas assim que eu não acho legal.
Achei ótima a idéia do anticoncepcional masculino. No meu caso, a gente prefere o anti, mas quem paga é meu marido! Porque é mais fácil para ele comprar, tá mais perto da farmácia, é mais barato, além disso é investimento conjunto. Graças a Deus não me dá efeitos colaterais também.
Uma das coisas que me deixa mais revoltada no machismo que ainda existe é no mercado de trabalho. Passei e ainda passo por essa merda. Coisas do tipo “será que ela consegue fazer isso” até ganhar menos. Tanto, que já mandei muita coisa pros ares depois disso. Até que hoje em dia tô bem tranquila a respeito: faço a pura atitude egoísta – faço o que é melhor para mim e que se dane os outros. Eu me aproveito mesmo. Porque empresa e muitos homens, só querem saber é disso, se aproveitarem.
Eu gosto quando meu marido paga a comida. Gosto porque aí eu não tenho que gastar, não é por causa de convenções nem nada hahaha… Mas eu também já paguei inúmeras vezes. E no final dá no mesmo. A gente tem a mentalidade que, já que estamos casados, e apesar de cada um ter seu dinheiro, seu trabalho e sua conta bancária, no final o dinheiro vai para o mesmo fim: compra de bens conjuntos, viagens, pagar contas. No final, acaba sendo dos dois, porque tudo é dividido.
Poutz, falei demais. Mas adorei o post, Mel!!!

    MelissaPostado em8:35 pm - jul 7, 2011

    Pois é. Tem gente radicial sim e eu entendo isso que você falou. É como se as pessoas quisessem invadir a sua intimidade, te criticando… Mas assim, o lance do feminismo são as idéias e a grande questão é a mulher se sentir bem consigo mesma.

    Eu imagino o cão que você passa nessa área. Provavelmente uma das que mais são dominadas por homens! E nem comento sobre ssa coisa de casar cedo… O pessoal pira quando a gente fala isso. É como se fosse um atestado de Amélia. Minha vontade é dizer “Peloamordedeus, vocês REALMENTE me conhecem”?

KakazinhaPostado em1:33 pm - jul 4, 2011

Ai, sorry, vou ter que falar mais um pouquinho.
Outra coisa que eu fico muito puta da vida é, talvez algo bem infantil ou bobo, mas me deixa nervosa… É o preconceito e o machismo entre os gamers. Quer dizer, eu sou gamer, gamer fanática e hardcore. Jogo desde o jogo bonitinho do Mario até terrorzão sangrento como Silent Hill. E fico simplesmente ultrajada quando vem algum babaca do sexo masculino (ou até do feminino) dizer “você joga que nem menininha”, ou “isso não é coisa de mulher” ou “vai jogar jogo cor de rosa”. Poutz, me sobe o sangue. O meu cunhado é assim, irmão do meu marido. Mas eu já dei várias pauladas nele. Pode vir que eu destruo no Marvel x Capcom, no Capcom x SNK, no Boxe e tudo mais. E já joguei muito mais sangue na tela do que ele. Da última vez que ele se meteu a besta, passou vergonha, porque eu destruí ele. E bem que meu marido avisou que não era para mexer comigo. hahahahahaha

    MelissaPostado em8:37 pm - jul 7, 2011

    Pois é. Mas são nessas pequenas coisas que a gente descobre os machistas, né? Tipo mulher não pode gostar de games, não pode gostar verdadeiramente de certos tipos de filmes e livros… Eu fico puta em perceber o quanto o mundo nerd simplesmente exclui algumas mulheres. Como se a gente não pudesse ser nerd!

      FelipePostado em1:31 pm - mar 2, 2012

      Eu sou gamer também e nunca destratei uma mulher em jogos. Jogo videogames com as minhas primas desde moleque e nunca vi disparidade entre nossas habilidades. Aliás, no grupo que joga L4D2 comigo, a melhor de todos é uma mulher – disparado pra falar a verdade. O que me irrita são mulheres que se acham especiais porque jogam videogame ou são “nerds”. Pode não ser o caso de vocês, mas o que tem de mulher jogando videogame e se intitulando nerd pra chamar atenção não está no gibi. No steam se você fizer uma pesquisa básica vai ver milhares de perfis com coisas como “Yes, I’m a gurlll and I play videogames”, como se ela fosse um floquinho de neve especial por ser uma garota e jogar videogame. É claro que isso também é culpa de uma minoria de babacas que assolam esses cantos, tanto os machistas quanto os “cavaleiros brancos” salvadores de donzelas. Tenho amigos que se passam por mulheres para ganhar itens e presentes nos jogos – e ganham muita, mas muita coisa mesmo.

      O “mundo nerd” exclui vocês, por diferentes motivos. Muitos nerds são caras que passaram a vida inteira sendo excluídos por mulheres e acham ali um lugar para despejar sua misoginia; outros simplesmente não gostam do tratamento especial que vocês tem nesse tipo de comunidade. Eu, particularmente, sou totalmente indiferente a isso; jogo e sempre joguei com mulheres, sem problema algum. Mas como falei acima, acho irritante garotas que ficam com “eu sou uma mulher e jogo videogames” como nesse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=XrBoeMF4FYs. É como se tivéssemos que dar um prêmio a elas, porque são mulheres e jogam videogames. Só joga, porra! É claro que esse não é um comportamento exclusivo das mulheres, essa “cultura nerd” tá irritando bastante hoje em dia, pra falar a verdade.

        MelissaPostado em12:46 am - mar 3, 2012

        Felipe, acho que entendo que você quer dizer. Existem mesmo mulheres que usam isso como uma forma de chamar a atenção e fica pedante. É como conhecer um cara que diz “Olha, eu sou um cara e eu cozinho!”, “Olha, eu sou um cara e faço bordado” ou “Olha, eu sou um cara e gosto da Hello Kitty”. Soa pedante. E eu sei que muitas garotas dizem que gostam de video games/futebol pra atrair caras. Do mesmo jeito que alguns caras dizem que gostam de comédia romântica e bandas da década de 80 pra atrair garotas.

        Em relação ao vídeo que você citou, não achei pedante não. Acho que o vídeo estava justamente dizendo que elas não queriam tratamento especial e que queriam ser encaradas como qualquer outro jogador. Sem assédio, sem preferências ou insultos. Eu achei uma iniciativa interessante.Na verdade, as mulheres do vídeo estão concordando com você: elas querem apenas jogar e não se sentir um floquinho especial.

Ana GabiPostado em8:54 am - jul 5, 2011

Que lindo seu post, Mel. Eu comecei a me tornar feminista em 2009, na minha primeira literatura com a Sandra. Mas ainda estou aprendendo a ser uma feminista de verdade, porque até então só sou feminista na literatura. =D Um dia eu chego lá.
Abraços!

BrunaPostado em11:48 am - ago 5, 2011

Bom resumo para desmistificar o feminismo!

Se fôssemos escrever tudo em miúdos, sairia um livro gigantesco.

Você acredita que eu já tive que ouvir da minha irmã que eu aderi ao feminismo como “desculpa esfarrapada para não lavar louça”?

Sério, a gente ouve cada coisa…

    MelissaPostado em9:49 pm - ago 5, 2011

    Daria para escrever uma coleção enciclopédica com desmistificações do feminismo começando com A, abater homens: feminismo não quer acabar com os homens. rs

    Minha família diz que feminismo é desculpa pra ser vadia. Realmente, é cada coisa… Já ouvi até que feminismo é desculpa pra mulher não andar maquiada (??????????).

Mundo de Coisas MinhasPostado em11:59 pm - out 30, 2011

[…] A sociedade conservadora conseguiu muito bem criar o esteriótipo da feminista machona, mal-amada e sem senso de humor que não é interessante e muito menos sexy. Pior que ser feminista, só ser uma feminista gorda e pobre. A verdade é que feminismo não tem nada a ver com isso e sim com igualdade entre os sexos. E antes que você venha me dizer que os diferentes gêneros têm direitos iguais e que essa balela de feminismo não faz sentido, eu recomendo que você leia esse post que eu fiz sobre alguns dos mitos do feminismo. […]

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