Resenha de Filme:Harry Potter e as Relíquias da Morte Surpreende

porMelissa de Sá

Resenha de Filme:Harry Potter e as Relíquias da Morte Surpreende

Finalmente uma adaptação da série teve um saldo positivo no fim das contas. Depois de fazer cinco filmes de roteiro fraco, Steve Kloves acertou a mão como roteirista e conseguiu fazer algo decente.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que adaptação fílmica é uma tradução de algo que está na mídia literária para a mídia cinematográfica. Sendo uma tradução, toda adaptação fílmica acaba sendo uma interpretação que precisa se adequar à mídia cinema. Isso é óbvio, porque não faz sentido simplesmente usar todas as falas e descrições do livro no cinema e apesar de algumas pessoas acreditarem que esse é o caminho, além de inviável em termos de tempo e espaço, ficaria horrível.

Adaptações sempre privilegiam algum aspecto. Por exemplo: algumas adaptações prezam por manter o chamado “espírito da obra”, ou seja, mudanças de roteiro grandes podem ser feitas, mas no fim das contas o que conta é a caracterização dos personagens, o ritmo, etc. Um exemplo desse tipo é o filme Desventuras em Série que apesar de ter mudado radicalmente o curso dos eventos dos livros 1, 2 e 3 da série, manteve a mesma atmosfera do livro. Já um outro tipo poderia ser aquele que privilegia a história a ser contada em detrimento da ambientação. Um exemplo bom seria O Iluminado, filme de Kubrick baseado na obra de Stephen King. Raríssimos filmes conseguem unir as duas coisas. Pra se ter uma idéia do quanto isso é difícil, o exemplo dado é O Senhor dos Anéis.

O grande problema das adaptações de Harry Potter feitas por Steve Kloves no roteiro (vale lembrar que Harry Potter e a Ordem da Fênix foi adaptado por outro roteirista, Michael Goldenberg, e é uma adaptação excelente que privilegiou o “espírito da obra”) é que ele realmente não sabe o que fazer. A impressão que se tem é que ele fica perdido e não consegue se decidir se mantém o clima do livro, se tenta contar a história, se cria coisas que ele acha que deveriam estar lá ou simplesmente não faz nada. Na minha opinião, Kloves é um roteirista medíocre que não consegue fazer escolhas: ele tenta colocar tudo, tenta criar um clima mas no final só consegue um punhado de cenas aleatórias sem sentido e algumas cenas longas demais tiradas da sua própria imaginação tosca que não acrescentam nada ao filme.

Estou sendo muito cruel? Huuum, vamos ver:

  • Harry Potter e a Pedra Filosofal: Kloves até consegue contar a história inteira e criar frases de efeito, mas a impressão que se tem é que não há passagem de tempo na história! Ou seja, tudo pode ter acontecido em um mês, ou uma semana, ou quem sabe até em vários anos…
  • Harry Potter e a Câmara Secreta: Mais uma vez a passagem de tempo é bem discutível. Nesse filme, Kloves começa sua louca obcessão por Hermione. Ela começa a aparecer mais, começa a roubar as falas do Ron e o fato de ela ficar um terço do filme petrificada não parece impedir nada disso.
  • Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban: Se no outro filme Hermione era a segunda personagem que mais aparecia, agora podemos começar a pensar se o melhor nome do filme não seria “Hermione Granger e o Prisioneiro de Azkaban”. Justamente quando a caracterização dos personagens começa a ficar mais importante, Kloves decide que as coisas ficariam melhor do jeito dele, ou seja, Hermione é uma bruxa preocupada com a aparência, Ron é um boboca e Harry é uma banana chorosa. Hermione rouba todas as falas legais. O background mais importante do livro (que é a história de Sirius Black – o tal prisioneiro de Azkaban do título) não foi contada. Kloves preferiu gastar tempo no cabelo de Hermione e em sentimentalismos em relação à mãe de Harry.
  • Harry Potter e o Cálice de Fogo: eita, livro de 500 páginas. As coisas começam a complicar. Qual estratégia utilizada? Cortar todos os detalhes que não influenciam na trama principal (mesmo que esses detalhes sejam importantes nos livros posteriores) e focar em cenas inúteis como em conversinhas amorosas que ele mesmo inventa.
  • Harry Potter e o Enigma do Príncipe: o ápice de Kloves. Nesse livro ele resolveu simplesmente não contar a história e fazer apenas uma collection de suas cenas favoritas. Além disso, Hermione e Harry começam a ficar bem próximos (??????????) falando sobre seus sentimentos (??????????????). Harry é um conquistador nato, Ginny é uma mocinha submissa e Dumbledore se preocupa com a vida amorosa de seus estudantes (??????????????). Isso tudo acrescentando cenas incríveis de autoria do próprio Kloves (como o puff de Slughorn para falar de quando a mãe de Harry morreu (Insensível? …………) e a ascendeção de varinha na morte do Dumbledore, que fez o final do filme parecer um show do Coldplay. Ah, e ele não falou nada sobre o Príncipe Mestiço do titulo. Que chato, hein?

Dessa vez, no entanto, em Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 1, Kloves conseguiu. O filme de modo geral é muito bom. A história é contada de uma forma lógica (que avanço, hein Kloves?) com um balanço bom entre comédia e drama. No entanto, o filme peca nos detalhes. Kloves não tem sensibilidade para cenas dramáticas e a maoria delas ficou um tanto novelas da Televisa (exemplo, cena em que Harry e Hermione ficam chorando porque Ron foi embora). Além disso, Kloves ainda prefere criar suas próprias cenas inúteis ao invés de usar as cenas impactantes que já existem no livro (vide trocar a cena tocante de amizade entre Harry e Ron depois de destruir a Horcrux por uma dança (?)  entre Harry e Hermione).

Dança entre Harry e Hermione: ainda parece um resquício de que Kloves é H/H...

Alguns detalhes beiram o brega. Entre eles, a gotinha de sangue escorrendo do braço de Hermione, Harry abotoando o vestido de Ginny Weasley e a tal dança acima mencionada. O beijo da Horcrux do mal entre Harry e Hermione completamente nus ficou, no mínimo, cômico. Mas não sei até quando isso foi uma decisão do roteirista ou da direção. Algumas cenas parecem ilógicas, até. Por exemplo: por que Harry, Ron e Hermione começaram a correr dos Snatchers se eles simplesmente podiam aparatar?

Harry e Ginny: sem graça e brega

Mas como eu disse, o filme teve saldo positivo. A caracterização de Lupin ficou muito boa apesar de não termos aquela cena em que ele pede para ir com Harry. As cenas entre Ron e Hermione também foram ótimas, com momentos de comédia e romance. A tensão entre os dois foi bem feita, principalmente quando Ron vai embora e depois volta. As sequências de ação da invasão ao Ministério da Magia, de Nagini atacando Harry e Hermione em Godric´s Hollow e da briga na Mansão Malfoy foram as melhores de toda a série no cinema. Inclusive, até o momento tocante de Harry no cemitério dos pais foi muito bom e emocionante. A morte de Dobby também foi um ponto alto do filme.

O casal Ron e Hermione foi um dos pontos altos do filme…

O filme surpreendeu no roteiro. Daria nota 3 de 5.

Sobre o Autor

Melissa de Sá administrator

Melissa é escritora e fica hiperativa com açúcar. É autora da distopia Metrópole: Despertar, publicada pela Editora Draco em 2016, e do livro infantil A Última Tourada, adotado em centenas de escolas no Brasil. Tem contos publicados em diversas antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento.

4 Comentários até agora

LucivâniaPostado em1:00 pm - nov 20, 2010

[comentários cheios de spoilers]

Da parte R/H da história, eu senti que faltou o Harry falar que amava Hermione como uma irmã. Isso seria mto, mto legal. =D

E… devo dizer que o beijo H/H foi mais ou menos como eu imaginava a Ginny pegando o Harry no dia do aniversário dele e não aquela coisa sem sal de quando ele teve que abotoar o vestido dela (em tempo, pq ela tava sem sutiã? era pra parecer sexy? o.o’) hauahau sou má, sorry.

Eu também teria gostado do Harry ter usado a capa da invisibilidade no Ministério e teria preferido se ele tivesse enterrado o olho do Olho-Tonto.

    MelissaPostado em1:37 pm - nov 20, 2010

    Eu acho que faltou a cena da amizade entre Ron e Harry. Porque é aí que o Harry diz que amava a Hermione como uma irmã e que a amizade do Ron era a coisa mais importante na vida dele. Mas o Kloves é um H/H enrustido.

    Pra mim H/G nos livros é o casal mais sexy e pegação, por mais estranho que isso pareça. Nos filmes é aquela coisa e morta, não tem emoção nenhuma, não tem appeal. Aquela cena de abotoar o vestido foi tosca e passou longe do sexy. Teria ficado melhor se tivessem colocado a Ginny agarrando o Harry, mas enfim, o Kloves é foda. Os dois são ridículos no filme.

    Também senti falta da Capa da Invisibilidade, até porque ela é importante pra caramba.

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